sábado, dezembro 22, 2007

Nota inicial: É suposto irem lendo o texto acompanhado com a música que meti... e a meio é suposto mudar para a segunda música...





Todos os dias o mesmo gato, passava pela mesma rua, onde a mesma senhora estava sempre na mesma janela.
Todos os dias o gato, ao passar pela janela da senhora que se punha à janela, parava e olhava para aquela expressão vaga de quem espera algo. «Que algo seria aquele?».
Como tal, todos os dias, o gato, depois de olhar com um olhar triste para a senhora da janela punha-se a andar pela mesma rua. O gato já conhecia todas as pedras da calçada e todos e os buracos que nela viviam e todos os dias, como se de um hábito fosse, se desviava deles como se de um poço sem fundo se tratassem. Os buracos, cheios de água da chuva que no dia anterior tinham caído, reflectiam as nuvens cinzentas que se ajeitava no céu, à espera de largarem vida.
O gato, já cansado de andar parou em frente de uma poça de água e sentou-se. Olhou para a poça e viu-se a si mesmo. Com um ar cansado já de meia idade viu por cima de si, pendurado numa janela uma gaiola vazia. Ainda ontem a mesma gaiola, pendurada na mesma janela, sempre à mesma hora, tinha uma rola branca que sempre que o gato olhava para ela lhe dirigia um ar infeliz de quem se sente aprisionada sem perceber bem porque. Porém todos os dias, à mesma hora, na mesma janela, um homem já idoso, abria-lhe a porta da gaiola e todos os dias, a rola ficava imóvel com o mesmo olhar infeliz de sempre.
Da porta do n.º 12 saiu o mesmo homem que todos os dias aparecia à janela para abrir a porta da gaiola da rola. «Que estranho. Nunca o vi sair». Com um ar esmorecido, o homem saía da porta esverdeada com uma caixa castanha de sapatos e com um passo lento e curto afastou-se do gato subindo a rua.
Começou a chover. O gato, ao sentir as primeiras gotas no pêlo começou a correr na direcção do descampado onde blocos de cimento se amontoavam da obra embargada. Olhou para o homem idoso e este sem um guarda chuva na mão guardou a caixa de sapatos debaixo do casaco para a proteger da chuva. Depois de o olhar, continuou a correr até chegar ao descampado que ficava entre uma florista e o n.º13. «Que péssimo dia para se morrer».
Com a chuva a aumentar o ritmo, o gato aninhou-se a umas mantas dentro de um grande cilindro de cimento e ali ficou a olhar a chuva cair até que se deixou dormir.
Já o sol brilhava e fazia algum calor. Não em demasia, mas aquele calor mesmo bom para passear e sentir o abraço do sol nas costas. Ao passar na rua, ainda os buracos estava cheios de água. Olhou para a poça e reflectido viu uma rola a saiu da gaiola da mesma janela onde o velho estava a olhar a rua. Olhou depressa para a janela e apenas viu o velho. Não viu a rola mas sentia que ela tinha acabado de sair da gaiola que desde ontem continuava vazia.
Ao continuar a andar viu a mesma senhora, na mesma janela com a mesma expressão vaga. Desta vez, a janela estava fechada, mas quando o gato passava por ela abriu-a e chamou o gato. O gato, espantado com tal parou e sentou-se na calçada a olhar para a janela do rés-do-chão. «Todos nós temos que morrer um dia não é?». A expressão da senhora mudava agora para uma infelicidade extrema. «Não gostava de morrer sozinha». Os olhos espelhados da senhora mostravam agora plenitude e com um gesto calmo fechou a janela e afastou-se dela. Era a primeira vez que o gato via a janela sem a mulher. «Também não quero morrer sozinho». Continuou a andar e por ele passou o idoso do n.º12. Estava com um passo apressado e ia em direcção ao autocarro azul que acabava de parar na estação. Era a segunda vez que via o homem fora da janela.
Continuou a andar até que parou no parque infantil, onde apenas uma criança se baloiçava numa tábua de madeira já velha presa com duas cordas muito muito grossas a uma árvore já muito velha. Ele trazia uma camisola vermelha e uns calções cinzentos. Não usava sapatos nos pés mas trazia-os nas mãos. Eram castanhos e dentro deles estavam duas meias azuis. Estava a chorar. O gato, ao passar pelo jardim, sentou-se e depois de pensar um bocadinho decidiu aproximar-se da criança. Tinha uns 10 anos e aos passos do gato foi passando a mão pela cara para tirar as lágrimas que lhe tinham invadido a face. Saiu do baloiço, calçou as meias e os sapatos e saiu a correr para a escadaria da igreja onde um homem bastante baixo e gordo o esperava e ambos entraram na igreja. O gato, encostado à raíz da árvore olhou para o céu que continuava a mostrar o mesmo azul e agarrada ao cimo de uma árvore viu uma rola branca. Olhou para baixo e quando voltou a olhar para a árvore ela já lá não estava. Do parque, que apenas um baloiço velho e um escorrega partido tinha, conseguía-se ver a janela do n.º12. O homem continuava à janela.
Cansado de estar sentado, o gato começou a andar em volta da árvore, que nunca tinha conhecido diferente. Escrito no tronco repousavam as palavras «Agora és livre, voa». Junto à árvore estava um pedaço de terra mexida. O gato, deitou-se aí e deixou-se dormir.
Acordou com o som de gotas a baterem nas folhas da árvore. O sol já não se via e começava a ficar escuro. O gato, com muito esforço subiu o trono da árvore e aí se deitou.
Um dos ramos da árvore começou a tremer um pouco e o gato viu que a criança da camisola vermelha se baloiçava novamente. O homem gordo não esperava na escadaria e provavelmente não sabia que ele se encontrava ali. Continuava a chover e os cabelos da criança estavam colados à cara. Não se conseguia distinguir o que era água da chuva e lágrimas. O gato ficou a olhar a criança até que mais uma vez o homem baixo e gordo que vestia um fato preto com gravata preta saía da igreja acompanhado por mais cinco ou seis pessoas todas vestidas de preto o chamou. O gato, olhou para a janela da senhora que ainda há pouco lhe tinha dirigido a palavra e viu que as portadas verde escuras estavam fechadas. «Que péssimo dia para se morrer».
Desceu a árvore e dirigiu-se em passo apressado pela rua. Não gostava que a chuva lhe molhasse o pêlo. Passou pela janela da senhora que já não estava na janela com a mesma expressão vaga.
Depois de passar o n.º13 e o descampado deixou-se ficar debaixo de um suporte de metal onde flores de vários tipos davam cheiro à rua. O gato gostava daquele cheiro. Era como se estivesse acompanhado.
A florista, que já sabia que o gato ali estava deitado saiu pela porta com uma sardinha e uma taça de leite na mão. Chamou-o, ajoelhou-se no chão e deu ao gato a sardinha. «Sinto-me sozinha». O gato parou de comer a sardinha que já estava a meio e com uma volta roçou-se nos joelhos da senhora. Esta, começou a chorar e voltou para dentro da loja. O gato seguiu-a e deixou-se ficar a olhar para ela que chorava compulsivamente atrás do balcão. Voltou atrás, acabou de comer a sardinha e continuou a andar. Já era noite e deixou-se dormir junto às mesmas mantas que continuavam imóveis no mesmo descampado.




No dia seguinte, acordou com o barulho de pássaros que piavam e voavam frenéticamente. Levantou-se, pôs-se a andar e ao sair do descampado olhou para a florista que abraçava com muito carinho uma criança muito nova a quem chamou sobrinho. Junto a ele estavam dois adultos que também a abraçaram. O gato sorriu e continuou a andar. Ao passar pelo n.º12 viu que a gaiola já não estava na janela e ao mesmo tempo que passava pela porta de entrada verde saiu o idoso com um jornal na mão. O gato sentou-se e olhou o homem a atravessar a estrada e ir sentar-se num banco de jardim para aproveitar o belo sol que estava nesse dia. Continuou a andar. As portadas verdes continuavam fechadas. Continuou a andar. No parque, junto ao tronco, onde a terra estava mexida começavam a nascer alguns trevos e outras ervas. O gato deixou-se ficar aí sentado e teve a certeza que viu uma rola a voar a sentar-se na outra parte do banco onde o velho lia o jornal. Junto ao baloiço a criança da camisola vermelha que agora vestia uma verde corria a sorrir levando na mão uma corda com um papagaio que voava balançado com o vento.
O gato teve um acesso de felicidade. Tudo parecia tão perfeito. O som dos pássaros, o cheiro a terra molhada, o sol que brilhava, o sorriso da criança, o voo da rola, a liberdade do idoso, o amor da florista. Tudo tudo parecia tão tão perfeito. E era!
«Que belo dia para se morrer» exclamou. Levantou-se e começou a andar. Tudo era tão perfeito! Continuou a andar.

6 comentários:

Firefly disse...

...






absolutamente fantástico...

Rute disse...

Delicioso! Mesmo Tiago! Grande, Grande Regresso! MESMO!!! É disto que eu falo, é desta paixão que já sentia falta!

De folta aos grandes posts, com um grande grande regresso. =D

E que somos nós todos os dias pala além desse gato?

Muito muito bom! Amei mesmo.

GotchyaYinYang disse...

Tiago este post está brilhante... o melhor post teu que já li!

Adorei... a música funde-se com a história... és brilhante!

e.t. disse...

Sem dúvida Tiago, brilhante é a palavra que descreve este post! Está brilhante!! Adorei! Muitos parabéns, a sério!

E é verdade, a musica funde-se mesmo com a história..isto dava uma bela curta-metragem!

Anónimo disse...

Queremos neste Natal,

poder armar uma árvore dentro de nossos corações e nela colocarmos,

no lugar de presentes,

os nomes de nossos amigos.
Os que vivem longe e os que vivem perto;
os antigos e os mais recentes;
os que vemos todos os dias e os que raramente vemos;
os que sempre recordamos e os que às vezes esquecemos;
os das horas difíceis e os das horas alegres;
os que sem querer ferimos e os que sem querer nos feriram;
aqueles que conhecemos profundamente

e aqueles que conhecemos superficialmente;
os que nos recordaram e os que recordamos,

nossos amigos humildes e nossos amigos importantes,

aqueles que nos ensinaram e os que deixaram-se ensinar por nós,

uma árvore de raízes muito profundas

para que os seus nomes nunca sejam arrancados de nossos corações.

Uma árvore de folhas muito largas para que os nomes vindos de todas as partes,
venham a se juntar aos existentes.

Uma árvore de sombra muito agradável para que nossa amizade seja um momento de repouso na luta pela vida.

Que o espírito de Natal faça de cada lágrima um sorriso, da amargura a sabedoria e de cada coração uma casa aberta para receber a todos.

Feliz Natal.

Beijos,

Pérola

J. Miguel disse...

Simplesmente GENIAL!!! Tava a ler a história e a imaginar como se estivesse a ver uma curta-metragem em tons de cinzento, mas com algumas cores esbatidas. E quando cheguei ao fim apeteceu-me aplaudir. Mas tu não ías ouvir :P

Adonde é que voces andam?